porque é possível pensar em todos os tempos verbais e virtuais
Sentado, as barras de sua calça preta evidenciavam menos os pés desprovidos de meias dentro do sapato cor creme do que os tornozelos despidos. A camisa, para fora da blusa, parecia bem acomodada naquela cadeira estacionada no canto direito - esquerdo dos espectadores na platéia - do palco.
Informal como o encontro se propunha ser, ele foi anunciado quando pensei que não haveria mais bate-papo. Antes, alguns extras do DVD do filme [a estrela da noite, por assim dizer] que dirigiu recentemente foram projetados no telão. Primeiro, o trailer, depois, um trecho do making of. Dividi-me entre a tentação de assistir a algumas cenas e ao mesmo tempo não prestar tal atenção que pudesse prejudicar a leitura do capítulo final do livro homônimo à película. Tarefa impossível, assim que algumas cenas surgiram me entreguei às sensações de imagens; fui introduzida aos rostos que davam formas aos personagens antes somente lidos, muito embora, para mim, Gael García Bernal havia vestido a personalidade do protagonista no momento em que abri o livro.
Finalmente ele entra. Flashes pipocam da platéia e os aplausos, tímidos, juntam-se às expectativas de, talvez, esperar mais polêmica do diretor. Uma pergunta ou outra lhe parece satisfatória; outras, jogadas a esmo, nem tanto. Decidi por aquietar minha ânsia em dissecar sua visão do romance que tanto mexera comigo, pois seria como trair o primeiro passado, O Passado de Alan Pauls.
Na saída, ao saber que ele autografaria algumas capas, voltei atrás na decisão, antes firme, de comprar uma cópia. Enquanto esperava, preocupei-me em esquivar das lentes de fotógrafos [ainda que não tenha obtido tanto sucesso] e até de uma emissora de TV. Subitamente, como protestos de um pênalti erroneamente validado por um juiz de futebol, ou pela nota inferior atribuída por algum jurado a uma escola de samba, um alvoroço tumultua os presentes. Muito embora não tenha visto o ocorrido, não demorei a entender que o diretor se irritara com uma pergunta pretensiosa do destemido repórter. Ele gritava e esperneava, numa reação sem precedentes à “babaquice” do agora embasbacado jornalista.
Passado o susto, não demorou muito para ele sentar à mesa reservada a ele e mudar a expressão.
“Desculpe-me, que coisa chata de acontecer”, disse, demonstrando um ar de surpresa e ao mesmo tempo desconcerto. Entreguei-lhe uma caneta minha, daquelas de marcar CD, assim que notei a falta de qualquer outra.
- Qual seu nome, disse, com toda serenidade que não lhe coubera antes.
- Patrícia, respondi firmemente.
- Patrícia, anunciou em voz alta enquanto escrevia.
Pensou um pouco, hesitou um pouco mais e, assim que terminou de desenhar as palavras no encarte, prosseguiu lendo o que havia escrito.
- Patrícia, você é a primeira pessoa no planeta a ter o DVD do Passado. HB.
Eu não era a primeira pessoa a ter, de fato, o DVD. Alguns já haviam comprado antes mesmo do bate-papo, e certamente outros já haviam garantido o seu por meio da ‘pré-venda’. São apenas particularidades, pensei. Eu era, sim, a primeira da fila, a primeira a certificar-se de que meu passado também ficaria para a história.*
Não sei se foi pelo recente término da festiva greve dos roteiristas americanos ou se pelas expectativas de praxe que giram em torno da festa - do irreparável tapete vermelho às dobraduras das marcas que colorem os vestidos -, mas é fato que não achei o Sr. Oscar tão bem no vídeo este ano. Os prêmios não me surpreenderam tanto. Vi algumas peças somente, e obviamente que, diante disso, tinha meus favoritos.
Bem, deixando o leite derrubado um pouco de lado, os momentos de flashback anteriores foram os que mais me enterneceram. Os vencedores de categorias como melhor diretor ou melhor filme no passado foram projetados no palco antes do anúncio do aclamado de 2008. Curioso ou não, é nesse momento - com as imagens de edições passadas - que sinto uma espécie de nostalgia não vivida, sem causa; o gosto latente de uma época que não poderia lembrar mais em relação a que estou agora. Sinto o mesmo ao embarcar na métrica cinematográfica de Orson Wells e na inteligência de Charles Chaplin, da mesma forma que me entorpeço ao ouvir o Jazz deveras incrustado pra lá do começo do século passado.
No caso do Oscar [e acredito eu que em muitas outras lacunas da vida], a impressão que tenho é de que o passado é, sim, o mais importante para afirmar o futuro. Porém, ainda assim, ater-se ao que está no presente retoma seu papel primário, o de exprimir a realidade mais imponente. Foi o caso de vangloriar almas dantes preteridas pela Academia e de dignificar o posto de porta-voz da frase tão redundante [And the Oscar goes to…] a uma geração inspirada aos moldes de Britney’s e Lindsey’s.
É aí que torno à minha frustração quanto às premiações [dentro de minha visão parcial, cabe ressaltar]: o melhor filme deveria ser ‘Atonement’ [’Desejo e Reparação‘ no Brasil dos brasileiros]. A chave da película em questão abre n possibilidades perturbadoras ao passo que retoma instâncias tão distantes do real. E é precisamente essa sensação de nostalgia, de certa ilusão precedida da esperança de se ter vivido o que jamais aconteceu que mais me fascina no filme e na vida. Não como uma forma de retrocesso, mas de maneira a validar que é possível, sim, provocar e vivenciar impressões sem ao menos tê-las experimentado.*
foto: divulgação
Um texto de Fabio Danesi Rossi, publicitário paulistano, escritor, autor de livros e séries, blogueiro de primeira. Há mais para conhecer sobre ele, mas só para citar, como seu mais recente feito, conquistou indicação a um prêmio pelo roteiro de uma série exibida no canal pago GNT. Publicidade feita, deliciem-se.
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Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos me empurraram para o abismo. Consegui me segurar na raiz de uma planta e fiquei ali, balançando em desespero, até Otto Lara Resende chegar e cortar o mal pela raiz. Foi uma queda e tanto.
Pobre de mim. As crônicas me fascinavam tanto que, ainda criança, resolvi que seria cronista. Durante as aulas de matemática e estudos sociais, preenchia cadernos e mais cadernos com rascunhos de crônicas sobre passarinhos e amores perdidos.
Cursei faculdade de jornalismo e enfim entrei em uma redação de jornal. A redação não tinha o barulho de máquinas de escrever, nenhum jornalista usava terno com nó de gravata frouxo, fumar era absolutamente proibido. Não era uma redação ideal, pensei, mas ainda assim era uma redação.
Meu primeiro texto foi sobre lojas de vela. Descobri uma velhinha suíça que fazia velas em forma de animais. Vela-foquinha. Vela-coelhinho. Vela-gatinho. Outra senhora, descendente de libaneses, fabricava velas com pinturas incrivelmente detalhadas. Tinha uma coleção inteira de velas que reproduziam quadros de Van Gogh.
Escrevi um texto falando sobre “o charme das velas contra a frieza das lâmpadas”, sobre “as chamas do passado que insistiam em iluminar a modernidade”.
O editor quase teve um treco.
- Essa merda está em primeira pessoa! Jogue fora e escreva de novo! Sem falar de você e da porra dos seus sentimentos. E coloque o preço das velas! E a porra do endereço das lojas.
Descobri que havia se criado na imprensa um verdadeiro ódio à crônica e à primeira pessoa. Não conseguia entender o porquê. Crônica era o que fazíamos de melhor! Rubem Braga! Fernando Sabino! Paulo Mendes Campos! Otto Lara Resende!
Tentei arduamente, mas não consegui abandonar a primeira pessoa. Eu era, tenho que confessar, apaixonado por ela. Escrever em terceira pessoa seria uma traição, seria como ter um caso - me desculpem - com terceiros. Meu editor berrou comigo na frente de todos. Me humilhou.
- Quem você pensa que é para escrever em primeira pessoa? A primeira pessoa é arrogante! É ultrajante! É… é… politicamente incorreta!
Fui pra casa, naquele dia, com a sensação de que minha vida tinha acabado. Queimei todos os antigos cadernos de escola e caí em um sono profundo.
Então, a coisa mais extraordinária aconteceu.
Cláudio acordou em terceira pessoa. Simplesmente acordou em terceira pessoa. Os gostos, os desejos, os princípios, as ilusões, tudo o abandonara. Ele não era mais eu, era ele. Caminhou até a redação do jornal e disse ao editor:
- Cláudio pede desculpas.
O editor lhe deu mais uma chance. Cláudio a aproveitou, e como! Em breve, não só era o mais bem sucedido jornalista do jornal, como era o jornal. Quinhentos mil exemplares de Cláudio eram vendidos todos os dias nas bancas. Prêmios e mais prêmios eram-lhe conferidos.
- Cláudio agradece a todos aqui presentes. Sem vocês, Cláudio nunca seria quem é, nunca chegaria aonde chegou. Cláudio está comovido.
Cláudio morreu no auge da carreira, rico e famoso. Velas em forma de rotativa foram acessas sobre seu túmulo e o enterro deu-se com muita pompa e circunstância. O presidente da república não pôde comparecer, mas enviou uma nota de pesar, “pela imensa perda do jornalista cuja obra representa a verdadeira crônica do nosso tempo”.
*
Dias depois do enterro, um sujeito arrombou o caixão atrás de dentes de ouro. Tomou um susto. Não havia ouro, não havia dentes, não havia corpo. Tinham enterrado um jornal de domingo.
Morre Cláudio, a Primeira Pessoa do jornalismo nacional
Mais informações na página doze.“
. patrícia kusunoki/24
. bacharel em jornalismo, formada pela Universidade Mackenzie, em São Paulo.
. onde pensa: São Paulo, capital
. pensamento atual: jornalista no diploma, e na vida, só começando; apenas penso que não posso parar.
[thin eyes, brown skin & black soul]
[slow motion]
[Alguns não conseguem afrouxar suas próprias cadeias e, não obstante, conseguem libertar seus amigos.
Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas? - Assim falou Zaratustra]
. Primeiro de tudo: sou chata. Um pé no saco. Só reclamo, falo merda, não tenho paciência. Sou chata.
. Tenho sérios problemas de atitude, convivência e conveniência, por que não?
. Sorrio às vezes, gosto de dar boas risadas, gargalhadas de doer o sistema digestivo inteiro, assim como chorar desesperadamente até que tudo melhore.
. Preguiçar é minha filosofia.
. Sou dorminhoca e comilona quando não penso muito ou não tenho motivo pra ficar pensando.
. Faço cara de mau, mas sou do bem.
. Gosto de dançar de olhos vendados, "como se ninguém estivesse olhando".
. Meu combustível é raiva e esperança (ou burrice, dependendo do ponto de vista).
. Procuro 'vestir' protetor solar todos os dias.
. Guerra sempre à vista. Comigo mesma ou com quem quer que seja.
. Erro e não nego. Mas aprendo e evoluo.
. Meu sobrenome social é Paradoxo, muito prazer.
Trágico? Irônico, eu diria.
*Só devo satisfação à felicidade.